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Vocês sabem sobre o autismo bem mais do que imaginam!

Para onde nos atrai o azul? (Guimarães Rosa)

No dia 2 de abril é comemorado o Dia Mundial da Conscientização do Autismo e a cor azul foi um dos símbolos escolhidos para representá-lo, juntamente à fita formada por peças coloridas de quebra-cabeça, que representa a complexidade dessa condição, a qual faz parte do TEA (Transtorno do Espectro Austista), termo cunhado, recentemente, para englobar o Autismo, a Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação. Muitos países iluminam seus principais monumentos de azul e as pessoas também se vestem com essa cor, com o intuito de ampliar a (necessária) conscientização acerca desse tema.

autismo

 

A falta de informação e o descaso com as causas relacionadas às pessoas que apresentam alguma deficiência, como a regulamentação de leis, por exemplo, só contribuem para alimentar o preconceito da sociedade e gerar mais exclusão. Por isso, essa é uma data muito significativa, que nos remete, também,  ao trabalho e ativismo realizado ao longo do ano todo.

Meus primeiros passos profissionais ficaram marcados, felizmente, pelo atendimento dessas pessoas, com as quais tive o privilégio de aprender sobre muitas coisas. Sempre serei grata e levarei no coração, pela vida afora, os ensinamentos que me proporcionaram. Quero desmistificar, aqui, o autismo, e mostrar que o conhecemos muito mais do que podemos imaginar.

Talvez vocês não saibam que utilizamos a palavra “espectro” devido a singularidade de cada quadro, cuja classificação em maior ou menor grau, relaciona-se com o nível de comprometimento de algumas habilidades, tais como comunicação e socialização. Mas, vocês conhecem o sentido de ser único e o cansaço da busca ininterrupta por ser aceito exatamente do jeitinho que se é, com nossas dores, defeitos e potenciais, sem a desvantajosa prevalência de uma coisa sobre a outra, sem as máscaras que criamos para não nos sentirmos tão solitários.

Talvez vocês não saibam que correr pode ser uma alternativa para o andar e que aquele movimento imitando o voar de pássaro, que alguns realizam, se chama Flapping, uma das esteriotipias (movimentos repetitivos) que podem apresentar. Mas, vocês conhecem a sensação de sentirem-se muito animados ou ansiosos com alguma coisa – que os digam as unhas roídas que alguns de vocês adotam como mania!

Talvez vocês não saibam que uma mudança de rotina pode acarretar uma crise de grandes proporções em um autista. Mas, quem é que não se assusta com as mudanças, com as novidades? Ainda mais se não formos avisado sobre elas, com antecedência!

Talvez vocês não saibam que o limiar de frustração de um autista pode ser baixíssimo. Mas, quem nunca pensou em desistir na primeira tentativa, por se sentir incapaz ou mesmo por desmotivação, heim?!

Talvez vocês não saibam que a autoagressão (ferir, provocar dor em si mesmo) pode acompanhar alguns quadros. Mas, se vocês já sentiram algum tipo de dor (e acredito que já tenham sentido), saberão o quanto ela é capaz de lhes devolver a atenção para as suas próprias questões e apagar, por um determinado tempo, as perturbações externas. Quem passou por um parto natural sabe disso.

Talvez vocês não conheçam os sabores e dissabores da espera de pequenas conquistas, que ficarão gravadas para sempre na memória daqueles que caminham ao lado de pessoas autistas e as comemorações dignas de festa, de quem aprendeu a viver fora do tempo de cronos. Mas, vocês conhecem a deliciosa e solitária sensação de receber uma notícia muito desejada, que para os outros não significa nada.

Talvez vocês não saibam que os interesses dos autistas podem ser bem restritos. Mas, muitos de vocês também carregam paixões que não agradam a todos e já passaram pela tristeza de ver alguém bocejar, enquanto algo tão importante é compartilhado.

Talvez vocês não saibam a dor que carregam os familiares por atrair olhares de estranhezas e incompreensão quando saem a passeio, o que faz com que, muitas vezes,  prefiram o isolamento do lar a terem que explicar o comportamento daquele que amam. Mas, principalmente os que têm filhos, sabem da intolerância e julgamento dos que não suportam ver uma criança em uma crise de birra ou choro. Quantas justificativas foram jogadas ao vento na tentativa, inútil, de receber a aprovação alheia, não?!

Talvez vocês não saibam que não existe uma causa específica responsável por desencadear essa condição, e que, muitos profissionais, conservadores e pouco informados, ainda atribuem à família a culpa e toda a responsabilidade desse “infortúnio”, como costumam denominar. Então, até encontrarem uma ajuda mais embasada, haja sofrimento, angústia e remorso. Mas, vocês podem conhecer a dor de ser acusado de algo que não cometeram e que gerou graves consequências para alguém querido.

Talvez vocês não saibam que os autistas apresentam dificuldade em realizar a seleção neuronal (seleção de padrões de movimento com maiores valores adaptativos); que seus pensamentos não são estruturados da forma lógica padrão e sim de maneira associativa, construído por uma rede de diversas possibilidades; que neles os neurônios espelhos (que possibilita identificar e compreender as expressões nos rostos das pessoas e, também, as emoções) são muito menos ativos; que seus comportamentos tidos como “excêntricos” são resultantes de um córtex pré-frontal (que inibe as emoções em prol de uma ação) desajustado; que existem múltiplas inteligências e que eles podem ser peritos em alguma delas, como a inteligência musical, por exemplo; e que a escola tradicional não leva nada disso em consideração, o que dificulta a socialização e a aprendizagem deles, contribuindo para exacerbar as diferenças. Mas, vocês, em algum momento, já devem ter se peguntado: Por que será que tanta coisa mudou ao longo dos anos e a escola continua parada no tempo? Ou já deve ter sofrido algum tipo de bullying por ter alguma caraterística atípica. Ou, ainda, conhecem o porre que é tentar se integrar em grupos já formados (as famosas panelinhas) que não estão nem aí pra vocês.

Talvez vocês não saibam que a linguagem, bem como a comunicação, também são dificuldades a serem enfrentadas. Muitos demorarão para falar. Quanto mais vocês fizerem uso de frases simples, bem articuladas e sem figuras de linguagem, mas fácil se tornará a compreensão e o possível diálogo. Mas, vocês já se atreveram a aprender um outro idioma e sabem que a eloquência e a paciência ajudam muito.

Talvez vocês não saibam que os autistas são hiper sensíveis aos estímulos sensoriais. Mas, muitos de vocês, devem saber a loucura que é estar em um trem lotado em pleno horário de pico, ouvindo diferentes sons ao mesmo tempo, em contato físico com pessoas desconhecidas, sentindo diversos cheiros e cercados por inúmeros estímulos visuais. Dífícil, não?! Agora, imagine isso acontecendo quase a todo o momento, sem interrupção.

Talvez vocês não saibam que eles apresentam dificuldade em manter contato visual e que enxergam as partes, os detalhes, mas não o todo. Mas, se vocês já olharam fixamente nos olhos de seu interlocutor, sabem o quão desconfortante é para ambas as partes.

Por último, cabe ressaltar que quanto antes o diagnóstico é realizado, melhores serão os resultados obtidos com os tratamentos existentes hoje em dia!

Poderia dar muitos exemplos, mas acho que já deu para compreender que todos nós, apesar de nossas particularidades, somos mais parecidos do que pensamos. Precisamos apenas tirar a estranheza do olhar, o medo de identificar de maneira amplificada, no outro, as nossas inseguranças e o que nomeamos de defeitos. Precisamos exercer uma empatia, sem julgamentos e sem superioridade. Viver de maneira mais colaborativa e menos competitiva. Respeite, tolere as diferenças, escute outros pontos de vista.

Uma das principais preocupações de familiares de autistas é com o futuro. Penso que se tivéssemos uma sociedade mais acolhedora, poderíamos amenizar esse medo deles e que também é nosso! Que tal nos esforçarmos um pouquinho?

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Na dúvida, apenas AME!!!

Abaixo um filme para quem quiser entender um pouquinho mais:

Abraços e até a próxima!

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