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Uma historinha sobre vulnerabilidade e vergonha

Algumas pessoas podem erroneamente pensar que, por estudar o desenvolvimento infantil e por orientar pais e educadores, com certeza, eu consiga levar numa boa a educação das minhas filhas.

Que bom seria se isso fosse real, mas sou tão vulnerável quanto qualquer ser humano. Ainda não fiz amizade com todas as minhas sombras, portanto, carrego comigo, fantasmas de experiências que ainda me assombram e um auto-julgamento severo que nunca me reconhece como suficientemente boa para a realização dos papéis que assumi ao longo dos anos.

Na escrita, nos encontros, nos atendimentos, organizo minha bagunça interna, aprendo com as histórias compartilhadas e com o que eu mesma tento passar, com base em estudos veiculados a minha profissão. Exerço a empatia! Entendo as dúvidas, as crises alheias e acolho as culpas sem julgamentos, pois estamos todos sujeitos, em maior ou menor grau, às intempéries da vida, não é mesmo?

Queremos melhorar a todo custo e até nos empenhamos para que o nosso contexto melhore também, mas até que ponto esse comportamento é saudável?

Aí que entra a história que escolhi para dividir com vocês.

Quando me tornei mãe, optei por exercer essa nova função de maneira verdadeira, ou seja, decidi mergulhar no lado bom e nem tão bom da maternidade e ter a humildade de reconhecer que eu não era perfeita e muito menos a terapeuta da minha filha e que poderia vivenciar, sem culpa, todas as demandas que surgissem, pois a infância é tão mágica e passa tão rapidamente. Provei e ainda provo os diferentes sabores dessa díade. Degusto com prazer o lado doce e sofro para engolir o lado amargo, mas busco diferentes receitas para aprimorá-lo e torná-lo mais receptível ao paladar.

Só que nem sempre é fácil!

Minha filha mais velha nunca foi um bebê expansivo. Seus tímidos sorrisos e gracejos sempre foram reservados às pessoas mais próximas, quase que como troféus. Também nunca a forçamos a fazer nada do que não queria, pois compreendíamos que, provavelmente, ela era uma criança com tendência a personalidade introspectiva. Portanto, nada de conversas, de beijos e abraços em desconhecidos e tudo o mais que, infelizmente, muitas crianças são instruídas a fazerem, pelos adultos.

Ela sempre levou mais tempo para se adaptar a um novo contexto, até sentir confiança e segurança para deixar fluir sua expressividade. Aí sim! Ela falava muito (até demais rs), brincava e interagia de maneira muito saudável. Tudo a seu tempo.

Com esse comportamento, veio junto, no pacote, a insegurança, a autocobrança e muitos medos, que foram sendo endossados pela suas experiências. Confesso que muitas vezes me senti confusa, perdida, imaginem ela?

Ouvíamos coisas do tipo: tem que cumprimentar as pessoas ou elas pensarão que você é mal-educada; tem que brincar com o amiguinho, senão ele pensará que você é chata; e muitos outros “tem que”, os quais, eu e o pai, tentávamos desmistificar.

Até que ela própria começou a se questionar e pela primeira vez perguntou para mim: Mamãe, se eu não quiser fazer tal coisa, o que acharão de mim? Opa! Expliquei que ela deveria respeitar o que sentia, mas a pressão sempre é maior nessa idade.

Em paralelo a isso, ouvia em cursos de profissionais renomados, coisas do tipo: a típica criança feliz – em referência a um comportamento padrão esperado no desenvolvimento da infância saudável, o que quase sempre era o oposto do que eu via em casa e um paradoxo, pois minha filha também era muito feliz.

As coisas saíram dos trilhos mesmo, quando ela começou a frequentar a escola. No começo tudo tranquilo, cuidadores bem afetivos e uma criança respeitada no seu próprio ritmo e muito valorizada por suas conquistas. Um momento de calmaria, ainda mais que eu estava grávida, novamente.

E a nova bebê chegou a nossa família e a professora da escola mudou! Tudo ótimo ainda. Sentíamos que ela estava sendo bem acolhida e que o brincar era muito valorizado.

Até que nossa filha mais nova cresceu um pouco mais e ficou muito evidente a diferença da personalidade de ambas, o que incitou a vinda das infelizes comparações. Uma só sorrisos e a outra mais reservada; uma mais alegre e a outra mais emburrada; uma mais tranquila e a outra mais brava…e por aí vai.

Confesso que cheguei a achar que por ser a segunda vez que vivenciava a maternidade, eu estava mais tranquila e que isso refletiu para a bebê. Comecei a sentir culpa pelo comportamento da mais velha e todo dia tentava entender o que eu havia feito de errado. Pronto! Deixei-me levar pela enxurrada de bobagens que nos cercavam e me perdi!

Nova mudança de professora e aí tudo fugiu do controle mesmo!

Ela não teve a paciência para esperar o período de adaptação da minha filha e passou a usar da autoridade para coagi-la a mudar. Punições, conversas com a diretora e mesmo palavras que marcam, negativamente, uma infância, foram utilizadas. Enquanto ela sofria calada, eu era convidada a dar um jeito nessa situação, pois daquela maneira não poderia ficar.

Aqui já podemos falar da vergonha!

Sendo uma criança tímida, inteligente e considerando a sua pouca maturidade emocional, minha filha antes percebia que sentíamos culpa, após realizarmos algo que nos parecia errado, que nos deixava triste, mas de tanto ser culpada por coisas que não cabiam nesse conceito, ela passou a sentir uma vergonha paralisante, pois trouxe com ela muitos medos. Ela passou a sentir-se um erro!

Foi quando buscamos ajuda e resolvemos dar um basta nessa situação toda!

Assumi minha vulnerabilidade e só tive a ganhar com isso! Conheci pessoas maravilhosas que me ajudaram a crescer muito – profissionalmente e como mãe; minha filha foi recebida amorosamente pela nova escola e, hoje, apesar de ainda um pouco machucada, não parece, nem de longe com aquela menininha de um ano atrás. Ela está muito feliz e diz isso com muita satisfação! Adora seu novo ambiente, as atividades e as pessoas com as quais convive quase que diariamente. Ainda existem desafios a serem vencidos! Então, aqui, nesse ponto, podemos falar um pouco mais sobre essa tal de vulnerabilidade.

Se repararmos, os momentos de vulnerabilidade, diferentemente do que muitos pensam, são os momentos que nos propulsionam às mudanças, à criatividade, à possibilidade de fazer diferente. São nesses momentos que podemos criar meios para crescermos, a partir de uma nova visão, uma nova oportunidade. Felizes os que aproveitam!

E o melhor, esses momentos acontecem com uma alta frequência, mas sentimos vergonha! Ainda estamos aprisionados nos julgamentos próprio e alheio, então deixamos o medo vencer e nos conformamos com as coisas do jeito que elas estão.

Mas, quando assumimos que sim, somos todos vulneráveis, sentimos coragem para nos transformarmos e assim também modificamos o nosso entorno.

Coragem é isso; é agir pelo coração! Mesmo que os medos não tenham sido superados, podemos silenciá-los sucumbindo à necessidade do fazer!

Já cheguei a me envergonhar dessa história toda, pois me via como o fator culpa do seu enredo! Agora, consigo enxergá-la como uma possibilidade de questionarmos os métodos utilizados nas instituições, as cobranças internas e externas que nos machucam e também às pessoas próximas, o abuso de autoridade com uma criança em pleno desenvolvimento emocional e afetivo e as suas consequências, o respeito à individualidade, e muitos outros.

Essa história pode, ainda, ajudar alguém que passa pela mesma situação e sofre calado, indicando algum caminho a trilhar.

Não aceito mais que minha filha seja adaptada às circunstâncias, por comodismo institucional! Quanto a isso estamos bem vacinados! Acreditamos que a empatia, o acolhimento e o respeito auxiliam bem mais na formação de um indivíduo estruturado emocionalmente do que a aceitação de regras e valores que não tocam o coração e criam desastrosos impasses internos!

Que a vulnerabilidade nos ajude a mudar, para melhor, sempre!

Deixo de presente, abaixo, duas palestras maravilhosas de uma estudiosa do tema! Assistam! Vale a pena!

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