Selecione seu estilo

Escolha seu layout

Esquema de cores

beach-193786_1280

Uma conversa sobre limites

Como colocar limites nas crianças? Essa é uma pergunta recorrente, trazida por pais e professores, nos atendimentos que realizo.

Bom, vamos lá! Primordialmente, procuro compreender o que as pessoas entendem por “limite”. Na maioria das respostas obtidas, as palavras obediência, disciplina e respeito se fazem presentes. Ao meu entender, há uma esperança de que passarei estratégias milagrosas que, se colocadas em práticas, resultarão em um bom comportamento, contribuindo para um ambiente de paz e de relacionamentos harmoniosos.

Mas, com certeza, não é tão simples assim! A maioria já sabe, porém sempre é bom lembrar: Educar dá muito trabalho e envolve muito mais coisas do que podemos imaginar!

Então, após lembrá-los dessa simples realidade, pergunto quais as estratégias que já utilizaram. Dessa vez são as atitudes que se repetem. Em resumo (e nem sempre com essas mesmas palavras): gritos, ameaças, barganhas, negociações, competições e até palmadas, sempre aparecem na vasta lista. Na contra-mão, mas com a mesma força, a permissividade também tem a sua cadeira cativa. *(Abordaremos mais sobre essas atitudes em um outro post, para que esse não fique tão extenso).

Não há julgamentos. Nessa altura, alguns já perceberam que, desse modo, não chegarão ao esperado (lembram? respeito, disciplina e obediência) e, se chegarem, não será com o mérito que gostariam. Por isso estão ali, compartilhando suas dificuldades e buscando orientações.

Aí é o momento de alinharmos os nossos conceitos e a nossa linha de raciocínio.

Para mim, em paradoxo com o sentido da palavra, “limite” possibilita diversas interpretações, mas gosto bastante da ideia emprestada de Françoise Dolto (que foi uma pediatra e psicanalista francesa) de que colocar limites não significa simplesmente a imposição de uma série de comportamentos, mas relaciona-se com o ato de ajudar a criança a construir-se, ensinando-lhe o respeito por si mesma, através do respeito dos adultos por ela.

A partir daí, necessita-se compreender, também, outras duas coisas: qual a fase que a criança se encontra e os sinais escondidos no comportamento da criança, ou seja, qual a problemática que ele traz à tona.

Começa a ficar mais complexo né?!

Dependendo da maturidade emocional da criança, pertinente a sua faixa etária, certos tipos de comportamentos são esperados, como a birra aos dois anos, por ex. *(assunto que também merece um post só para ele, pois dá muito pano pra manga –  nesse post faremos uma abordagem geral só para simplificarmos.).

A criança, apesar da pouca maturidade, está a pleno desenvolvimento dos órgãos dos sentidos e constantemente aprimorando as suas percepções, necessitando botar à prova seus aprendizados e exteriorizar de algum modo seus incômodos internos e externos que consegue captar e aos quais muitas vezes empresta voz, corpo e alma. Qualquer atitude da criança não é característica única de sua personalidade, mas diz respeito também a todo seu contexto. Essas atitudes, muitas vezes chamadas de sintomas, costumam aparecer sob a forma de agressividade, dificuldade de socialização, embotamento, atitudes desafiadoras e por aí vai. Vale a pena o esforço sim de se tentar entender o que está nas entrelinhas, acontecendo dentro do esperado na forma de uma experiência ou pedindo socorro, na forma de algo a ser resolvido ou simplesmente contextualizado.

Já deu para perceber a importância de conhecermos todo o contexto da criança e de estarmos em sintonia com ela, sendo uma referência segura e amorosa. Sim, colocar limites, exercer autoridade, não precisa ser algo duro, frio. Pode e deve ser algo que ofertamos empaticamente com o intuito de, inclusive, satisfazermos uma necessidade básica infantil referente aos cuidados. A criança não tem maturidade e autonomia suficiente para dar conta de toda a sua demanda sozinha. Precisa sim de alguém que tome as rédeas. Autonomia se constrói aos poucos, permissividade em demasia, traz para a criança uma carga de responsabilidades a qual ela não está pronta para lidar. É bom termos isso bem claro: respeitar a criança não significa satisfazer todas as suas vontades.

Algumas dicas podem facilitar esse processo.

O adulto deve ter clareza da mensagem que deseja passar e fazer isso do modo mais objetivo possível e uma única vez, olhando nos olhos da criança e, se possível, dando algum estímulo proprioceptivo como mãos apoiadas nos ombros ou joelhos da mesma, para que a atenção dela se volte toda para isso. Deve falar baixo e calmamente, porém firme e manter o que for acordado. Lembre-se que desejamos que a criança se acalme e compreenda alguma questão colocada, portanto nosso exemplo de como agir é totalmente assimilado por ela. Se gritarmos, fizermos chantagens emocionais ou nos mostrarmos muito irritados a deixaremos mais nervosa e não conseguiremos atingir nossos objetivos. Aceite o fato de que ao colocarmos algum limite a deixaremos frustrada, portanto tome uma dose extra de paciência e não tenha medo do choro e possíveis gritos que surgirão. A criança muitas vezes utiliza esse comportamento como válvula de escape, para extravasar. Não caia na tentação de entrar em seu jogo agindo como ela, começando uma competição descabida. Mostre que está no controle da situação, mas que entende todo o motivo da irritação. Como? Ficando ao lado dela, validando o sentimento emergente e oferecendo seu apoio quando ela entender que é o momento. Muitas vezes essa situação terminará com um limite colocado, um adulto empático com a criança e um colinho bem gostoso para selar esse vínculo saudável que está se formando. Não é fácil, eu sei! Mas o resultado é tão bom que vale qualquer sacrifício.

Sempre que possível ofereça outras possibilidades antes de colocar limites (o que também já é um limite rs). Se a criança está pulando e você gostaria que ela sentasse para jantar, por exemplo, deixe claro isso para ela. A tendência é pedirmos para que não façam algo, quando na verdade seria mais proveitoso pedirmos para que façam o que esperamos. No caso do exemplo acima, a frase “Sente para jantar agora, por favor!” é muito mais diretiva do que a frase “Pare de pular” que não oferece nenhuma outra alternativa.

Evite fazer perguntas que possam gerar algum tipo de confusão, como: “Você poderia parar de pular?”.  Acredito que não estamos querendo que escolham algo, mas desse modo, oferecemos essa oportunidade.

Não se desautorize e nem desautorize os demais cuidadores da criança. O adulto que estiver com ela é seu responsável naquele momento e é ele que deve colocar algum limite, se necessário. Falar que quando o pai  (ou qualquer outra pessoa) chegar vocês irão resolver a situação, apenas serve para mostrar para a criança o baixo nível de autoridade do adulto que está com ela e que ela não precisa respeitá-lo. Para isso, todos devem falar “a mesma língua”. Se um fala que não pode e o outro que pode, é claro que a criança sempre penderá para o lado que lhe é mais vantajoso. Importantíssimo nessa questão a sintonia entre família e escola também!

Sempre que possível, ensine a criança a vivenciar experiências, as quais podem ser consideradas perigosas, de uma maneira coerente. Exemplo: se ela quer subir a escada sozinha, mostre que é possível se sempre tiver algum adulto por perto, dando suporte. Ela perceberá que tem a confiança do adulto e terá orgulho de sua conquista, aprendendo aos poucos a superar pequenos limites.

 Por fim, mas um lembrete. A criança aprende a respeitar limites, vivenciando situações de limites. Como assim? Soa esquisito né?! Aposto que na escola e em casa a todo momento ela está interiorizando esse conceito e os adultos nem estão percebendo.

Quando ela realiza uma aula de educação física, quando ela brinca livremente, quando ela cria um jogo com os amigos, quando ela dança, quando ela faz algum esporte ou qualquer atividade motora, ela está aprendendo sobre limites.

Quer ver alguns exemplos? Em uma dança cuja coreografia pede para que dê dois pulos e uma voltinha, se ela não fizer desse modo não conseguirá acompanhar; ao escalar uma árvore ou algum brinquedo ela testará até onde consegue ir e aos poucos tentará se superar; ao sentar para ouvir uma história, ela terá que respeitar o seu próprio espaço e o espaço dos colegas para que todos consigam aproveitar melhor a proposta; ao abraçar o amigo ela pode perceber novas possibilidades de interação e a aceitação ou não do outro; ao aguardar a sua vez em uma fila; ao seguir uma rotina diária, em casa ou na escola; ao testar e tentar carregar diferentes objetos em suas brincadeiras, explorando conceitos de peso, formas e texturas; ao pedir para fazer algo; ao servir-se nos horários das refeições…

A lista é infindável, bem como a busca por novas experiências. Toda criança testará qualquer limite com o qual se deparar. Faz parte de sua volição acompanhada da curiosidade em um corpinho a pleno desenvolvimento. Tenhamos paciência!

Aos adultos deixo uma dica. Se ao lidar com a questão dos limites você se deparou com suas próprias limitações e não sabe como agir ou está muito difícil, não hesite em pedir ajuda, seja de outros pais, familiares ou profissionais. Tanto criança quanto adulto sairão ganhando.

Limites são pequeninas pedras que são colocadas no caminho dos pequenos para que cresçam seguros, respeitando e sendo respeitados. Quando fazemos da maneira apropriada, futuramente evidenciaremos o resultado: muito amor! Por isso escolhi a foto que ilustra esse post.

Abraços e até a próxima!

Para receber as atualizações curta a página do “Brincando por aí” no facebook.

Para conhecer mais sobre meu trabalho, acesse o site www.brincandoporai.com.br

Sem comentários

Conta para mim!

Topo