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Tipos de mães: uma visão a partir do conto ” O Patinho Feio”

Descobrir com certeza qual é a sua verdadeira família psíquica proporciona ao indivíduo a vitalidade e a sensação de pertencer a um todo. (Clarissa Pinkola Estés)

“O Patinho Feio” é um dos contos de Hans Christian Andersen que mais me emociona. Sempre que me sinto deslocada de algum contexto, lembro dele e de sua mensagem: Vai, aguenta mais um pouco! Logo você encontrará a sua turma!

Quando li “Mulheres que Correm com os Lobos”, passei a gostar ainda mais dele. A autora amplia lindamente essa mensagem, abarcando a função materna que, diante de tantas informações, pode passar batida pelo leitor. A maternidade reacende a chama da nossa criança adormecida, trazendo juntamente a luz, também as nossas sombras, ambas advindas de memórias afetivas registradas na primeira infância.

Na psicologia junguiana isso é conhecido como “complexo materno”. Conhecê-lo é o primeiro passo para identificarmos à quantas andam as estruturas que nos sustentam nesse papel.

Ao analisar alguns atributos da mãe pata do conto, Clarissa Pinkola nos presenteia com algumas descrições maternas, com as quais podemos criar identificação. Abordarei um pouquinho de cada uma.

A mãe ambivalente: 

No conto, a mãe pata é tratada com escárnio por ter um filhote que não se adequa às expectativas dos demais animais. No começo consegue manter-se firme, porém, dividida emocionalmente, isola-se de seus instintos, perde sua segurança e sucumbe aos falatórios, passando a rejeitar sua própria cria.

Muitas mulheres sentem-se divididas quando são confrontadas a escolher entre o filho (que também pode ser um elemento simbólico, fruto de sua criatividade, como um livro, por exemplo) ou entre ser aceita pela comunidade.

Uma saída pode ser a tentativa de tentar moldar o filho para que aja “adequadamente” em seu meio. Conquistar a obediência do outro transforma-se em objetivo. Criatividade e curiosidade passam a ser punidas e censuradas em vez de recompensadas, com a desculpa de que isso é realizado para o próprio bem do ser amado.

Uma mulher que traz consigo a imagem da mãe ambivalente em sua própria psique, pode surpreender-se cedendo com facilidade, com medo de firmar uma posição e de exigir respeito, além de apresentar muita dificuldade de viver a seu próprio modo, buscando sempre a aprovação alheia.

A mãe com um “filho diferente” precisa ter muita resistência e coragem para reverter a situação a seu favor e aprender a defender a si mesma e o que acredita. Resgatar seu instinto e sua segurança. Só assim não cairá nessa armadilha que ainda encontramos em nossa sociedade.

A mãe prostrada:

Ao perceber que o esforço por proteger o filhote não surtiu efeito algum, a mãe pata desiste e pensa que seria melhor que ele desaparecesse. O que se concretiza – o patinho feio foge!

A cobrança da sociedade pode perturbar tanto uma mulher até, finalmente, conseguir levá-la a um estado de prostração, fazendo com que desista de tudo, inclusive de si mesma. Sentimentos de confusão, de que ninguém compartilha de sua aflição, agitação, entre outros,  passam a lhe fazer uma solitária companhia.

A situação é tão dilacerante que a mulher não consegue perceber a crueldade de uma cultura que a julga e lhe cobra esdrúxulas escolhas. Assume a culpa para si e ainda sente-se envergonhada por não conseguir realizar o que esperavam dela.

Quando carregamos dentro da gente a imagem da mãe prostrada, nos tornamos uma pessoa bastante indecisa em relação aos nossos próprios valores. Não nos sentimos pertencentes a lugar nenhum.

A mulher que se identifica com isso, não deve permanecer sentada chorando e se lamentando. Mesmo com todas as dificuldades, deve reunir o quase nada da força que lhe resta e sair à procura do seu lugar. Voltar a pertencer!

A mãe criança e a mãe sem mãe:

Fica bem claro, ao lermos o conto, que estamos diante de uma mãe pata bastante simplória e ingênua, que quer muito seus filhotes, mas acaba por rejeitar um deles por se sentir deslocada e fragilizada. Não recebe apoio alheio.

Muitas mães sentem-se exatamente dessa mesma maneira ao perceberem-se incapaz de ilustrarem o esteriótipo de mãe perfeita vendido, impiedosamente, pela sociedade, esquecendo que o ideal é apenas uma falsa convenção, tanto quanto o certo e o errado.

A fragilidade pode fazer com que a mãe não se sinta merecedora do amor de seu próprio filho. Numa cultura que aplaude a independência, muitas vezes esquecemos que a mulher precisa receber atenção materna (seja de quem for) para conseguir dar atenção a sua própria prole. Ninguém consegue construir uma função materna satisfatória de uma hora para outra e ainda sem ajuda. Sem o auxílio e a experiência de outras mulheres, sem a acolhida de um grupo, ela se tornará uma “mãe criança”, inexperiente. Tem amor pelo filho, mas não sabe como cuidar dele, pois também não foi cuidada. Não conta com esse recurso interno.

A mulher com uma mãe criança interna pode tanto oferecer ao filho uma espécie de atenção destrutiva ou exagerada ou mesmo negligenciá-lo.

Ajudar essa mulher a descobrir sua verdadeira identidade de maneira empática e acolhedora, pode operar milagres.

A mãe forte, a prole forte:

Resgatar o relacionamento sadio entre as mulheres, a sororidade que a nossa sociedade ainda patriarcal e machista insiste em tentar eliminar, pode ser um caminho de fortalecimento e cura. Encontros ricos de criatividade e conselhos prósperos que nos permitirão obter cuidados de mãe para a nossa criança interna.

Se a mulher teve uma mãe destrutiva na infância, poderá arrumar um jeito de preencher, saudavelmente, esse buraco, essa falta. Precisamos umas das outras. Precisamos resgatar nosso instinto, nossa sabedoria feminina. A competição só nos destruirá e, consequentemente a nossa prole.

Vocês nasceram de uma mãe mas, se tiverem sorte, terão mais de uma. (Clarissa Pinkola Estés)

O que é espantoso para muitas mulheres não é a reconstrução da mãe interna em si, mas, sim, o medo de que algo essencial tenha morrido e não possa mais ser resgatado.

Podemos respirar tranquilas! Como na natureza, os anseios da alma conseguem sobreviver com muito pouco, quase sem nenhum alimento. Os danos não são letais.

Desejo que cada mulher consiga resgatar o que há de mais sagrado em si mesma! Que o dia 8 de março de cada ano, sirva para nos lembrar disso! Que cada uma encontre seu lugar de pertencimento!

Abraços e até a próxima!

 

Referência: Mulheres que Correm com os Lobos – mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkolas Estés)

 

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