Selecione seu estilo

Escolha seu layout

Esquema de cores

mom-1006328_1920

Sobre teorias, palpites e instinto materno

“Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. (Clarice Lispector)”

Frequentemente recebo mensagens de mães com pedidos de indicações de livros ou com perguntas referentes ao meu parecer sobre determinada teoria. No corpo da mensagem, um certo desespero de quem já tentou de tudo, de quem já ouviu diferentes especialistas ou de quem se sente julgada pelas pessoas de seu convívio. Compreendo essa angústia, afinal sou mãe também.

Mas antes de sermos mães, somos também mulheres e fazemos parte de uma sociedade que nos subestima, nos desvaloriza, nos enxerga como inferiores, nos culpabiliza e nos faz sentir vergonha de situações em que, inclusive, somos as vítimas. Salvo as mais resilientes e possíveis exceções, somos ainda, netas, filhas, irmãs e amigas de mulheres que aprenderam a conviver com suas dores e incertezas, amparadas pelas defesas e crenças limitantes que criaram no decorrer do caminho.

Somos o sexo frágil em oposição ao sexo forte e dominante, nessa estúpida dicotomia de gêneros, pois na dança da dualidade, reforçada pela política e economia, ninguém nos ensinou a integrar, em nós mesmos, o que há de melhor em cada uma dessas potências.

No clima de competitividade que impera, independente de gêneros, aprendemos a ser rivais. Precisamos de reconhecimento a qualquer custo e buscamos nos sobressair em qualquer atividade, por menor que seja. Queremos ser os melhores, os perfeitos, mas, não conseguimos, o que nos faz sentir, além de culpa, uma imensa solidão, pois difícil achar alguém que nos apoie verdadeiramente, sem julgamentos.

Muito se fala, hoje em dia, sobre o empoderamento feminino como um antídoto para essa dada realidade, no entanto, isso sempre me causou uma certa estranheza. Muitas vezes, esse potencial é tratado como algo que vem de fora, não como algo que se encontra no interior de cada uma, mesmo que adormecido, esperando o sinal para despertar e provocar profundas mudanças, pois libertará o instinto aprisionado que, sem alternativas, cedeu espaço e importância a tudo o que nos é alheio.

No barulho da confusão, nos perdemos de nós mesmas, não nos escutamos mais e, ainda que um chamado quase abafado insista em nos chacoalhar, rapidamente o calamos, pois, mesmo que seja inconscientemente, sabemos que ele nos tirará do comodismo das respostas prontas. Aí vem a insegurança nos perguntando insistentemente se daremos conta.

Então, em frente a menor dúvida, lá estamos nós pedindo opiniões, reproduzindo ações as quais nem acreditamos, sucumbindo a palpites que nos machucam, e, com isso, novamente, rivalizando e reforçando os extremos, nos distanciando cada vez mais do centro, do instinto, do real empoderamento.

E como não nos escutamos, não escutamos também ao outro. Antes que ele acabe de falar, já temos algo pronto a oferecer que foi pensado enquanto ele ainda nem cogitava pedir um parecer sobre aquilo. Decidimos para o outro o que fazer, o que comprar, como agir, tudo com base em nossa experiência, primando a praticidade. Afinal, quem tem tempo hoje em dia para apenas escutar alguém e o esperar chegar, sozinho, a melhor resolução para sua demanda?

Quer um exemplo corriqueiro? É comum vermos em grupos de redes sociais, pessoas pedindo indicações de médicos, de serviços, de escolas, entre outros e, embaixo, outras pessoas, com boas intenções, indicando fulano de tal, ciclano daquilo, sem ao menos perguntar o que exatamente a pessoa está buscando, se é que ela parou para refletir sobre isso.

Já fui muito questionada por não dar respostas prontas e acusada de complicar algo que parecia simples. Pois é, mas está longe disso. Cada um precisa descobrir e traçar o seu próprio caminho e na educação dos filhos isso não é diferente.

Em um curso que participei recentemente, foi discutido sobre o conceito da auto-educação, o que me pareceu uma medida muito sensata.

Não há, basicamente, em nenhum nível, uma educação que não seja a auto-educação. […] Toda educação é auto-educação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o ambiente da criança educando-se a si própria. (R. Steiner)

A auto-educação requer que aprimoremos a escuta interior para libertarmos em vivências a nossa própria essência, para que possamos criar uma verdadeira conexão com o nosso interlocutor, embasada pelo auto-respeito e confiança no nosso instinto. Quando nos sentirmos confiantes, teremos confiança no ambiente que propiciamos para que o outro se auto-eduque também.

Não sabe por onde começar? Comece, primeiramente, questionando-se sobre suas próprias ações e prestando atenção nas projeções ocorridas.

Por que entrei para esse grupo de mães? Como exerço o ativismo que acredito? Qual o meu nível de tolerância com quem pensa diferente de mim? E por aí vai…. Deixe as respostas virem sem distorções. Exerça seu auto-conhecimento. Esteja realmente presente nas atividades que se propõe a realizar. Nesse exercício de aumentarmos a conexão conosco mesmas, serviremos de modelo e ampliaremos a conexão com nossos filhos. Só então poderemos começar a falar de teorias e nos manter imunes a palpites descabidos.

Não pense que será fácil, afinal “cuidar da própria vida” ganhou, ao longo dos tempos, conotação de xingamento.

As teorias servem para embasarmos nossas ações, para trazerem tranquilidade em relação às nossas escolhas e conforto na coerência entre o pensar e agir. Servem para que possamos ler e colocar em prática o que nos alegrou o coração e que vai de encontro ao nosso instinto. Mesmo assim, não precisamos nos apegar e reproduzir fielmente determinado modelo, podemos e devemos, ter a crítica de que nem tudo caberá dentro de nossas experiências – que são únicas e nos fazem únicas.

É como se estivéssemos montando um grande quebra-cabeça, onde todas as peças estão presentes, mas não conseguimos encaixar algumas delas. A teoria pode ajudar nesse encaixe, mas as peças são nossas.

Do mesmo modo, um grupo pode nos respaldar em diversas situações, se tivermos a consciência que a busca de uma unidade, que faz com que todos pensem exatamente igual é algo inconcebível. Ao unirmos nossas diferenças é que criamos um todo fortíssimo, potente.

Não precisamos ser reprodutoras de modelos alheios se nos auto-educarmos e se estivermos conectadas com o que nos é importante, fortalecidas em nossas próprias concepções.

No mais, sejamos tolerante com quem estiver iniciando o caminho ou que nem se quer pense em iniciar.

Um palpite externo não nos causará tremores se nossa base estiver bem fundada, e, se causar, enxergaremos como uma possibilidade de trabalho interno, como oportunidade de descoberta de conteúdos que ainda nos afligem e que precisam vir à tona para serem solucionados.

Aos poucos, com muita paciência, iremos aprendendo a ser rede, a ser suporte, mãos amigas e colos de empatia e só teremos a ganhar. O verdadeiro reconhecimento será o nosso próprio e ficaremos satisfeitas com isso. Ganharemos muito mais com a tolerância e a cooperação. Nossos filhos idem, uma vez que aprenderão com essa atitude, valores importantes sobre auto-estima, amor próprio e respeito.

Aquele mito “não conte seus projetos para ninguém senão eles não realizarão”, se tornará uma piada infame e insustentável.

Quando estamos inseguros e contamos algo para alguém, os palpites se somam as nossas incertezas e nos fazem mudar os nossos caminhos, por medo. Mas, fortalecidas, os projetos uma das outras se somam e palpites duvidosos são lançados para escanteio sem parcimônias.

Ao investirmos em nossa auto-educação, criamos possibilidades para que outras também o façam.

Não acredite em profissionais que prometam entregar soluções na bandeja, ao melhor do estilo “Seja VOCÊ mesma, seguindo o MEU modelo, em 10 passos”. Já antecipo que não funciona. Pode até apagar um incêndio, mas outros virão.

Que tal aproveitarmos que logo, logo, um novo ano se iniciará, para investirmos mais em nós mesmas? Que tal investirmos na nossa auto-educação, para deixarmos aflorar nossas intuições e instintos? Que tal estarmos mais presentes nas relações que sustentamos e oferecermos a nossa escuta sincera e a possibilidade do outro resolver conflitos, sem nossas intervenções?

Vale a pena tentar!

Para acompanhar as postagens curta a página do “Brincando por aí” no facebook e acesse o site www.brincandoporai.com.br para conhecer um pouco mais sobre o meu trabalho.

Abraços e até a próxima!

 

 

 

 

 

 

 

Sem comentários

Conta para mim!

Topo