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Por que estimulamos demais as crianças?

Nunca nos preocupamos tanto com o desenvolvimento infantil como atualmente.

O que por um lado possibilita importantes mudanças de paradigmas, em relação a educação infantil, mas, por outro, potencializa as ações de pessoas despreparadas e de quem enxerga, nesse contexto, uma oportunidade de negócio.

Brinquedos, técnicas, teorias, métodos de ensino são amplamente divulgados e vendidos, amparados pela garantia dos estímulos que proporcionarão aos pequenos.

Pais, cuidadores e educadores acabam por concluir que, estimular é a chave para a obtenção de satisfatório desempenho, seja ele físico ou emocional.

Encaminhamentos de professores, frisando a necessidade de estímulos extra-escolares, chegam, a todo momento, às mãos de profissionais da saúde, e, contagiam os pais, que não poupam esforços em preencher a agenda infantil com diversas atividades em prol do desenvolvimento.

Mas qual a função do estímulo?

Grosseiramente, em resumidas palavras, o estímulo é um fator que provém do meio externo e/ou interno e visa provocar uma atitude coerente com a demanda apresentada. Porém, sua simples oferta, nada nos diz. Para que possa provocar uma resposta, ou mesmo desencadear uma determinada ação, é necessário que o indivíduo se mostre reativo, ou seja, que participe, ativamente, de todo esse processo.

Infelizmente, isso tudo não tem sido levado em consideração.

Se respeitássemos tal conceito, nos contentaríamos em oferecer às crianças, um ambiente seguro e adequado para o exercício do livre brincar, sob os nossos olhares atentos.

Aos bebês, permitiríamos uma livre exploração do espaço, para que fizessem uso de suas habilidades intrínsecas, sem a nossa intromissiva intervenção.

Eles não precisam de cadeirinhas que estimulem o sentar, não precisam de andadores e nem de todo arsenal que nos empurram quando adentramos o mundo da maternidade e da paternidade.

Eles precisam de liberdade para descobrirem, por conta própria, suas potencialidades em desenvolvimento. Nesse ponto, o exercício da paciência é de extrema valia, mais do que os estímulos.

Se percebemos que o bebê está prestes a rolar sozinho, por exemplo, mesmo que demonstre alguma dificuldade, por que ajudá-lo a completar a ação? Se ele não estiver correndo riscos não devemos interromper! Eis o significado de ser ativo no próprio processo de registro de habilidades. Não precisamos fazer absolutamente nada, aliás, atrapalhamos quando fazemos. O bebê deve “buscar o mundo” e não o contrário.

Claro que, quando percebemos alguma dificuldade neuropsicomotora, advinda de alguma síndrome ou deficiência, aí sim um profissional deverá avaliar se precisaremos “levar o mundo até o bebê”, ou, em outras palavras, se o estimularemos, adequadamente, visando o máximo de autonomia – um pequeno empurrão para o vôo solo. O que pode e deve ser feito da maneira mais significativa e funcional possível.

Digo isso, pois, não compactuo com muitos métodos que se valem de treinos. Darei um único exemplo para não me estender muito no assunto.

Com embasamento na teoria desses métodos, alguns profissionais utilizam, o que denominarei aqui de “tábuas de atividades”. Essas tábuas consistem em oferecer situações cotidianas (como tipos variados de tampas, zíper, cadarço, botões, velcro, torneiras, fechaduras, entre outros) que exigem o uso de certas habilidades motoras, para assim viabilizar o treinamento das mesmas. Também podem ser “tábuas” contendo objetos para estimulação sensorial, dependendo sempre do objetivo trabalhado.

Acredito ser muito mais produtivo e significativo oferecer tais sensações e exercícios em ambientes motivadores (um parque, por ex) e em atividades contextualizadas, pois, desse modo, atribuímos um motivo para que a ação ocorra e ainda aumentamos a chance de que a mesma seja processada e registrada pelo sistema nervoso, criando uma memória para que ela possa voltar a acontecer outras vezes, em outros lugares, em situações semelhantes. Não faz mais sentido amarrar o próprio cadarço ou abrir um pote para utilizar o conteúdo em uma receita ou abotoar a própria camisa? Para mim faz!

Acontece que, alguns desses métodos, deixaram o ambiente dos consultórios e adentraram nas escolas e em nossos lares. Foi então, que a confusão toda, em relação aos estímulos, foi tomando corpo.

O que inicialmente havia sido criado para suprir a demanda de algumas crianças, passou a fazer parte do conteúdo aplicado pelas escolas. E cada vez mais conteúdos foram sendo agregados, limitando, explicitamente, os momentos destinados ao brincar, que nem sempre ocorriam livremente, e sim, de maneira direcionada.

Já em casa, nos deparamos com a dificuldade em encontrar um equilíbrio.

Transitamos entre a oferta de brinquedos caros que brincam sozinhos, ao simples toque de um botão, ao som de fundo da televisão sintonizada em um programa educativo, enquanto os jogos eletrônicos são deixados, brevemente de lado, no quarto hiper decorado e equipado e entre tirar todas as distrações eletrônicas, mas reproduzir com as crianças os modelos “estudados” via internet, atribuindo novas funções educativas aos nossos papéis de pais.

Não consideramos que a conexão verdadeira com as crianças e o livre fluxo da rotina diária são educativas por si só. Complicamos o que poderia ser mais simples. Confinamos em atividades estimulantes, sem fim, o grande potencial do livre brincar, da livre exploração. Se permitirmos, a criança, sabiamente, buscará os brinquedos e as ações que suprirão suas necessidades, sem precisarmos apontar caminhos.

Atentemos, apenas, em proporcionar um ambiente tranquilo para que isso aconteça, buscando ser prudentes, em relação ao que e ao quanto deixaremos exposto para ser utilizado.

A oferta desenfreada de estímulos pode causar desconforto, irritabilidade e, ainda, desencadear embotamento afetivo ou comportamento agitado e agressivo.

Não me admira o crescente número de diagnósticos de déficit de atenção e hiperatividade. Ainda acho estranho e fico muito triste ao presenciar uma criança em um parque, totalmente livre, sem saber o que fazer, entendiada, sem saber como brincar.

A imaginação, a abstração e a criatividade têm perdido feio para o excesso de estímulos. Não pára por aí, mas deixemos para um outro dia. Por hoje já foi informação demais, não é mesmo?! rs Até a próxima!!!

 

Para acompanhar as postagens siga a página do “Brincando por aí” no facebook e acesse o site www.brincandoporai.com.br para conhecer um pouco mais sobre o meu trabalho.

 

 

 

4 Comentários

  • Fantástico artigo, Bruna, para variar ;)!

    Em certa medida retirou-me um pouco a sensação de culpabilidade que tenho de não poder oferecer aos meus filhos uma educação mais baseada no método Montessori, com uma escola que promova a autonomia. Nesse contexto, no pré escolar, são efectivamente oferecidos os tais quadros de actividades. Pessoalmente creio serem muito interessantes num contexto escolar, justamente por desenvolverem as ditas competências manuais e, por consequência, cognitivas. Mas é assim a vida e não dá.

    Quanto ao que ofereço em casa, fora da escola, esforço-me por proporcionar actividades ao ar livre com intervenção mínima. Estamos no Inverno e senti-me uma mãe fantástica quando levei os meus filhos mais crescidos (quase 7 e 3) para um parque na cidade. Era a única, pois estava frio e havia aguaceiros muito fracos, mas a brincadeira passou de correr atrás dos patos para criar uma fogueira (leia-se colher e juntar galhos de árvores) para cozinhar um pato para o jantar, ahah! Só parou porque a chuva adensou e estava a escurecer.

    Estou lendo um livro bem interessante que aponta neste mesmo sentido. Chama-se Simplicity Parenting, de Kim John Payne, e ele diz que as crianças do mundo desenvolvido vão desenvolvendo o equivalente ao stress pós traumático. Porquê? Por causa do stress cumulativo. E aponta 4 pilares do demasiado: demasiada escolha, demasiada informação, demasiadas coisas (tralha) e tempo demasiadamente acelerado (ritmo de vida). Diz que estamos a roubar a infância às crianças. A sua sugestão vai ao encontro deste artigo – reduzir nos 4 aspectos!

    Abraço sempre admirativo 😀

    • Obrigada por compartilhar sua experiência e pela indicação do livro! Não conhecia! Vou procurar para ler!
      Bjos!!!

  • Bruna, Parabéns pelas matérias… estou compartilhando para o meu trabalho… Abraços

Conta para mim!

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