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O tédio nosso de cada dia

Quase todos os homens vivem inconscientemente no tédio. O tédio é o fundo da vida. Foi o tédio que inventou os jogos, as distrações, os romances e o amor. (Miguel Unamuno)

Imagine um espaço seguro, com quantidades e tipos adequados de brinquedos, dispostos atrativamente ao alcance das crianças, para que possam exercer a deliciosa função de brincar.
Imagine agora, adultos conscientes da importância dessa atividade para o desenvolvimento infantil, que mantêm uma presença harmoniosa e observadora, evitando propor atividades e que interagem somente quando solicitados.
Imagine ainda, um quintal bem grande que oferece infinitas possibilidades de ações, tais como escalar, pular, correr, brincar na areia, e por aí vai.
Imagine tudo isso reunido em um local só.
Perfeito! Nenhuma chance para o tédio se instalar!
Ledo engano!

Não é raro ouvir reclamações de pais que oferecem isso tudo acima, mas que se sentem perdidos ao ouvir dos filhos: “O que eu faço agora?”; “Do que eu posso brincar?”; “Não tem nada para eu fazer nessa casa!”
Aí que a maioria sucumbe, rouba o protagonismo que a criança vinha exercendo e enumera infinitas sugestões – quase nunca aceitas.
Tédio instalado. Que tal ligar a televisão, principal remédio contra esse “mal”?
Pronto! Garantia de mais um tempinho – quiçá horas – sem ouvir essas desconcertantes frases.
E sabe por que desconcertantes? Porque não sabemos lidar direito com o tédio. Achamos que o certo é sempre estarmos ativo, fazendo algo produtivo e de preferência divertido. Enxergamos o tédio como um inimigo, um incômodo e traçamos uma batalha para eliminá-lo. No dia seguinte, olha só quem vem nos visitar outra vez…

Em tempos de redes sociais, isso se torna mais forte ainda. Temos sempre a impressão de que nossos amigos fazem coisas interessantes a todo o momento, fortalecendo a sensação de que estamos sendo ultrapassados nessa silenciosa competição que inconscientemente travamos. Não, não há tempo para vivenciarmos o tédio!
Nossos filhos captam esses valores e passam a temer, também, essa estranha sensação que nos assombra em um determinado momento do dia, e que é tão comum!

“Atenção: Essa vida contém cenas explícitas de tédio, nos intervalos da emoção.” (Alice Ruiz)

Vamos permitir que eles vivenciem o tédio de maneira diferente. Da próxima vez que se encontrarem frente ao impasse de não saberem o que fazer, que tal deixarmos que encontrem soluções sozinhos? Que tal tratar isso como deveria ser tratado – com naturalidade?
De fato, o tédio traz certo desconforto, mas talvez seja essa a mola propulsora da nossa criatividade, o apelo para o silêncio e o descanso, em um mundo cada vez mais barulhento e agitado. Um empurrão para novas possibilidades, ou mesmo para fazer as mesmas coisas de sempre, porém de maneira diferente. Uma pausa para o nosso autoconhecimento e de descoberta dos caminhos que nos levam às coisas que nos agradam.

Alguns estudos trazem que pessoas com baixa tolerância ao tédio, tendem a ser mais impulsivas e agressivas, além de desenvolverem compulsões como drogas, álcool, comida, etc. Não queremos contribuir para essas estatísticas e muito menos queremos que nossos filhos contribuam.

“A cura para o tédio é a curiosidade. Não existe cura para a curiosidade.” (Ellen Parr)

Nossos filhos ficarão entediados, assim como todo mundo, e não há mal nenhum nisso.
Entendo alguns pais que se culpam pelo tédio dos filhos e que, por isso, tentam evitar que vivenciem isso a todo custo. Ninguém gosta de se sentir entediado, causar o tédio no outro, então – inadmissível!
Isso fica bem nítido quando levamos nosso tédio para visitar o tédio de amigos! Não nos permitimos um minuto sequer de silêncio no coletivo, suprindo o desconforto com narrativas incessantes de nossas conquistas, nossas viagens ou mesmo nossos dramas e dificuldades. Precisamos parecer interessantes para nos sentirmos queridos, aceitos.

As escolas tradicionais também não sabem lidar direito com isso. Preenchem todo o tempo do aluno despejando conteúdos e cobrando um retorno sobre a assimilação dos mesmos. Minam a criatividade, o pensar, a autonomia e, consequentemente, a auto estima.
Em casa, não suportamos o ócio da criança, o brincar diário e os possíveis surtos de tédio, então tratamos logo de preencher toda a semana com um cardápio cansativo de atividades extra-curriculares, mostrando que o mais importante é se manter ativo, sem pensar nas consequências que isso acarretará.
Não me admira, no meio desse caos todo, que muitas pessoas, desejando viver em paz, busquem uma vida mais tranqüila em cidades menores. Nem sempre resolve, pois na verdade elas não aprenderam ainda a conviver com o tédio, e sim, ele vai junto! Vivemos atualmente um paradoxo! Almejamos intensamente a paz, mas na mesma proporção, fugimos dela.

“A paz me deixa nervoso – acho sempre que é tédio” (Fabrício Carpinejar)

Que o tédio das nossas crianças nos ensinem a lidar com o nosso próprio tédio!
Que possamos resignificar nossos sentimentos frente ao turbilhão de expectativas que nos assombram a cada dia. Que não neguemos sentimentos tão primitivos que muito têm a acrescentar em nosso crescimento pessoal.
Da próxima vez que nos sentirmos entediados, vamos tentar assumir um novo comportamento? Quem topa?

“O tédio é de uma felicidade primária demais! E é por isso que me é intolerável o paraíso.” (Clarice Lispector)

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