Selecione seu estilo

Escolha seu layout

Esquema de cores

child-885831_1280

O desenvolvimento do desenho no primeiro setênio – Parte I

O lápis torna visível o que anteriormente a criança “escrevia” no espaço dançando: é coreografia – linhas de vitalidade rítmica e dinâmica. (Michaela Strauss)

Aprender sobre o desenvolvimento do desenho no primeiro setênio, agrega ao nosso conhecimento muito mais do universo infantil do que podemos imaginar. Por acreditar nisso, resolvi compartilhar com vocês um pouco da minha experiência e dos estudos existentes referentes ao tema. Como o conteúdo é imenso, dividirei em partes para melhor aproveitamento. Nesse primeiro momento, conversaremos sobre os traçados iniciais. Espero que aproveitem!

Um fato curioso, e que nem todos sabem, é que se deixarmos a criança livre, entregue ao seu próprio processo criativo e de criação, qualquer que seja sua idade, nos primeiros sete anos, ao usar um lápis pela primeira vez (ou qualquer outro objeto que lhe permita desenhar), sem sombra de dúvidas, ela iniciará pelas garatujas. Claro que, se for uma criança maior, ela passará por essa fase rapidamente, percorrendo todas as etapas, desse mesmo modo, até chegar a fase correspondente ao seu estágio de desenvolvimento.

Sim, o desenvolvimento do desenho, na primeira infância, apesar de conter linguagens únicas, ocorre em etapas comuns a todas as crianças de diferentes culturas. Fato comprovado por Rhoda Kellog que, ao estudar 300 mil produções infantis, encontrou padrões repetitivos de estruturas tais como traçados e a área de aplicação dos mesmos no papel.

Para constar uma informação mais organizada, porém deixando claro que tabelas são apenas parâmetros e não regras, as etapas do primeiro setênio são:

– Primeira fase: dos 0 aos 3 anos

subdividida em:

* Garatuja desordenada

* Garatuja ordenada

* Garatuja nomeada

– Segunda fase: dos 3 aos 5 anos

– Terceira fase: dos 5 aos 7 anos

Todas serão contempladas no blog, no entanto, hoje, nossa atenção se voltará para a primeira fase, mais precisamente para a Garatuja desordenada.

Garatuja é um termo criado por Viktor Lowenfeld para denominar os primeiros rabiscos (traços sem nexos e desordenados) produzidos pelas crianças, quando surge a necessidade e vontade de se expressarem graficamente.

Garatujas são cartas que as crianças escrevem para si mesmas. (W. Grözinger)

O interesse por desenhar desperta, geralmente, por volta dos 2 anos e é transferido para o papel por meio de um ensaio ainda tímido de todo conteúdo que ainda está por vir. Em coerência com as possibilidades neuropsicomotoras, a produção inicial constitui-se por riscos, amplos traços arqueados e linhas sinuosas. A criança passa para o papel sua experiência de movimento, utilizando a articulação do ombro e o corpo todo como auxiliar no processo de criação do desenho. Ora os traços saem mais leves que quase não conseguimos enxergar, ora mais fortes, que quase chegam a furar o papel.

exemplo de garatuja desordenada

Exemplo de garatuja desordenada de uma criança de 1a11m

Com a coordenação e a lateralidade ainda em desenvolvimento, costumam variar o modo como seguram o lápis e até mesmo a mão que utilizam para realizar o traçado.

riscos, arcos amplos, curvas sinuosas, traços que muitas vezes ultrapassam o limite do papel são algumas das características do desenho dessa fase.

Riscos, arcos amplos, curvas sinuosas, traços que muitas vezes ultrapassam o limite do papel são algumas das características do desenho dessa fase.

A produção tem mais a função de válvula de escape advinda de uma necessidade intrínseca do que qualquer outra coisa. Quando a composição gráfica se conclui, a criança não demonstra muito interesse pelo produto final, embora se sinta feliz com a devolutiva do adulto. Se perguntarmos o que ela desenhou, após um breve período, mesmo sem olhar para o desenho, responderá nomeando com algo que lhe é comum, ex. bola. Ao perguntarmos novamente, mais tarde, pode ser (e quase certeza que será) que sua resposta seja completamente diferente, ex. casa. O conteúdo de sua produção ainda não lhe importa, pois ainda não há a fantasia associativa que permite a ocorrência desse processo.

Garatuja de uma criança de 2 anos.

Garatuja de uma criança de 2 anos, em que podemos perceber a oscilação da força utilizada nos traçados.

O mais importante nessa fase é deixar fluir livremente essa expressividade. Se o adulto assim permitir, testemunhará uma criança envolvida em sua nova descoberta, identificada com os ritmos que surgem sobre o papel, deixando-se levar completamente pelo movimento.

Por não terem esse conhecimento, muitos adultos se mostram ansiosos nessa primeira fase, tentando direcionar o traçado dos pequenos ou, pior ainda, os “ensinando” a desenhar. Essa atitude acaba por atrapalhar o início do processo artístico e criativo infantil, o qual é responsável por, futuramente, desencadear ações que levarão ao exercício da força de vontade, da autonomia e, consequentemente, da autoestima.

Muitas crianças têm a expressividade bloqueada devido ao direcionamento que tiveram na primeira infância, ou seja, passaram pela experiência de desvalorização de suas produções próprias, enquanto eram incentivadas a colorir no contorno, reproduzir desenhos prontos, realizar desenhos dirigidos e por aí vai.

Cabe ressaltar que, somando-se a tudo que já foi falado, a criança está em construção constante de seu mundo interior, então evitar desenhar para ela contribui muito nesse processo. O ideal seria incentivá-la a tentar transpor para o papel, a seu modo, o que deseja, pois isso a tornará mais segura e auxiliará no desenvolvimento de sua imaginação e abstração.

Sobre o melhor tipo de material para oferecer nessa etapa, sugiro que releiam (ou leiam) a seguinte postagem do blog: “Como o brincar influencia na preensão do lápis”.

Continuaremos a falar sobre o desenvolvimento do desenho em futuras postagens. Acompanhem! Será bem legal!

Abraços e até a próxima!

Curta a página do “Brincando por aí” no facebook para receber as atualizações.

Para conhecer um pouco mais sobre o meu trabalho, acesse o site www.brincandoporai.com.br

 

 

 

 

 

6 Comentários

  • Lembro dos meninos nessa primeira fase.
    Lembro que o Ricardo começou a “desenhar” de ver o Arthur desenhando. Então o único encanto pra ele, na verdade, era com a tinta saindo do giz, e não um desenho….. Logo, quando perguntavam pra ele o que era aquilo, ele que era meio impaciente, ele respondia bravo “Não ta vendo que é um desenho”.

  • Bruna, parabéns por seu trabalho. Também me interesso muito pelo desenho infantil. Sou coordenadora do Instituto de Desenvolvimento Waldorf. A citação “Garatujas são cartas…”não é de Goethe. É de um autor chamado Wolfgang Grözinger, que escreveu o livro Kinder kritzeln, zeichnen, malen, em Munique, 1952. Como as iniciais são as mesmas (WG) ocorreu essa confusão, sendo que a frase acabou sendo atribuida à Goethe. Abraços!

  • Pingback:coisas giras | mãegazine

Conta para mim!

Topo