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“O desenvolvimento do desenho no primeiro setênio – Parte final”

“Os desenhos nos ensinam a ver o desenvolvimento infantil como um processo de múltiplas metamorfoses. Dentro de uma sequência contínua, observamos tanto os passos intermitentes para frente, como também o estancamento retardativo, ou inclusive elementos regressivos.” (Michaela Strauss)

Como prometido, aqui estou novamente para finalizar a abordagem sobre o desenvolvimento do desenho no primeiro setênio. Já vimos, entre outros, as garatujas, os significados dos primeiros traçados, a influência da organização rítmica e metabólica, a formação do Eu e da figura humana. Neste post veremos um pouco sobre a casa, as cores e alguns outros temas arquetipicamente relevantes dentro desse contexto.

Vamos lá, então!

A casa é um tema bastante explorado pelas crianças e surge, primeiramente, para demonstrar a necessidade do cuidado do adulto, para que se sintam protegidas no mundo que começam a entender como exterior a elas, com enorme capacidade de afetação interna.

Por isso, os primeiros esboços costumam ser denominados “a casa protetora”; a criança se desenha envolta em uma esfera. Até mesmo porque, até mais ou menos os quatro anos, o círculo é a forma que consegue realizar, visto seu desempenho motor.

A "casa protetora".

“A casa protetora”.

 

desenho de uma menina de 4 anos e 5 meses

Desenho de uma menina de 4 anos e 5 meses

Após conquistar um pouco mais de autonomia, a cápsula esférica passa a ser substituída por uma forma que se assenta na borda inferior da folha. Presenciamos a “mudança de moradia” da casa circular para a casa cúbica, onde sobressaem as novas formas que passam a explorar – quadrados e retângulos, que costumam ocupar a folha toda, como uma moldura para o espaço interno que ganhará merecida atenção, uma vez que surge a necessidade de enfeitar essa nova habitação. Móveis, a própria criança, pessoas próximas e tudo a que ela atribui como sendo integrante do  seu lar, costumam ser inseridos nessa grande “caixa”.

O interior da “casa caixa”, no desenho que essa menina de 4 anos e meio nomeou de “Jantar com a família”

Esse novo movimento pode ser observado, também, nas escolhas das brincadeiras. Cabaninhas, barracas, entrar embaixo de mesas ou em caixas de papelão costumam fazer parte do repertório dos 4 anos, de uma maneira bastante significativa e contextualizada – não apenas por curiosidade. A criança está apta a perceber o meio com maior exatidão e distanciamento e demonstra tal ganho com perguntas cada vez mais realistas, pois necessitam ampliar os conhecimentos anteriores que já não lhes são suficientes (ex. qual o tamanho dos bebês quando eles vão parar nas barrigas das mamães?)

Há uma mudança de interesses advindo da intensa observação das atividades ao seu redor. Existe agora o entendimento da organização de uma rotina diária e das funções e profissões que caracterizam as pessoas. Aos membros da família são atribuídas as descobertas, sejam em desenhos ou nos jogos de imitação. A atenção pelo funcional é o que permite o acréscimo de detalhes nos desenhos. Na casa, por exemplo, mais que a porta, surge a maçaneta que configura a ação – “o abrir-fechar”, mostrando um maior controle e cuidado na relação com o externo.

As janelas também começam a aparecer e, frequentemente, demonstram a disponibilidade de interação. Janelas abertas, que expõem em demasia a parte interior podem indicar uma certa vulnerabilidade – a criança ainda não se sente segura o suficiente para lidar com algumas questões e necessita do auxílio afetivo de algum adulto. Já janelas com grades ou com cortinas e persianas tapando parcialmente a vista, mostram que ela está se sentindo segura, protegida para lidar com o outro. Janelas sempre fechadas podem indicar um certo embotamento afetivo que vale a pena ser investigado. Pessoas na janela, ou fora da casa, olhando para dentro, costumam indicar que chegou o momento de maior exploração do externo – a criança pode, inclusive, desenhar a si própria do lado de fora.

Nessa última fase, costuma aparecer o telhado da casa, geralmente representado por um triângulo, a nova forma que já é capaz de realizar.

Janelas indicam que a criança se sente protegida e formato triangular do telhado, no desenho de uma menina de 5 anos e 4 meses

Janelas indicando que a criança se sente protegida e o formato triangular do telhado, no desenho de uma menina de 5 anos e 4 meses

Sobre as cores, há muito desencontro na literatura disponível sobre o assunto. Algumas abordagens acham apropriado introduzir as cores comedidamente, ou seja, primeiro as cores primárias, no intuito de que as experiências com elas levem a possíveis descobertas, para só depois oferecer as demais. Outras preferem não permitir o acesso às cores escuras, em especial o preto, por não considerarem adequado ao desenvolvimento dessa fase. Também existem os que não vêem problemas em oferecer todas de uma vez.

Enfim, há muitas controvérsias que dificultam um parecer mais claro, porém, o que vemos de comum no desenvolvimento infantil e que apresenta relação com as cores é a realização de grandes “tapetes” coloridos ou monocromáticos, geralmente construídos das periferias do papel em sentido ao centro, e que podem nos contar um pouco sobre o estado emocional da criança, sobre as cores que ela relaciona aos sentimentos, às debilitações físicas, entre outros.

Um exemplo de tapete, feito com aquarela, por uma menina de 3 anos e meio.

Um exemplo de tapete, feito com aquarela, por uma menina de 3 anos e meio.

Para finalizar, seguem algumas informações que considero relevante.

– A divisão da paisagem em céu e terra, costuma aparecer no desenho por volta do quarto ano, quando a criança se apropria do plano horizontal. No começo há uma dicotomia bem marcada – céu bem acima e terra ocupando bem pouco da superfície inferior. Conforme a criança passa a se orientar melhor no espaço, essa distância vai diminuindo, até que se encontram de vez.

– O caminho em frente da casa, já demonstra uma noção de perspectiva, possível pelo desenvolvimento da terceira linha de amadurecimento, que nos traz a noção de frente-atrás.

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Nesse desenho de uma menina de 6 anos, observamos a noção de perspectiva, o encontro entre céu e chão, a maçaneta na porta indicando atenção funcional presente, pessoas na janela, na garagem e fora da casa, sugerindo a capacidade e o desejo de maior exploração do exterior e contato com o outro.

– A figura do sol geralmente começa a ser desenhada do lado direito da folha e, aos poucos, vai migrando para o lado esquerdo. Quando tal fato se dá, costuma indicar que a criança já está pronta para a alfabetização – diferenciação dos hemisférios cerebrais: o hemisfério esquerdo já está pronto para a aprendizagem. Isso ocorre por volta dos 7 anos de idade.

O sol já está posicionado à esquerda nesse desenho de uma menina de 6 anos que se prepara para iniciar a alfabetização.

O sol já está posicionado à esquerda nesse desenho de uma menina de 6 anos que se prepara para iniciar a alfabetização.

– O arco-íris indica um período de transição, quando os hemisférios cerebrais ainda não se diferenciaram. Fase da pré-alfabetização, em que é comum, por conta desse acontecimento, as crianças representarem letras e números de maneira espelhada. Não há nenhum problema nisso – trata-se apenas de uma fase de preparo para maior aprimoramento cerebral. Isso ocorre por volta dos 6 anos.

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Apesar de estar um pouco escuro, pode-se perceber que esse desenho de uma menina de 6 anos, mostra que ela está passando pela fase de pré-alfabetização. Atentem também para o detalhe da figura humana, agora desenhada de perfil

 

Arco-íris de uma menina de 5 anos e meio.

Arco-íris de uma menina de 5 anos e meio.

– A presença de gramados pontiagudos, bandeirinhas, passarinhos com o formato da leta V, entre outros similares, quando feitos de maneira espontânea, podem indicar o início da queda dos dentes de leite para dar lugar aos novos dentes que começam a despontar.

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Desenho realizado por um menino de 6 anos, uma semana antes de cair o seu primeiro dente de leite.

Poderíamos abordar mais coisas, porém acho que com toda essa informação já dá para ter uma base bem bacana de como ocorre o desenvolvimento do desenho no primeiro setênio.

Cabe ressaltar que essa é apenas uma das inúmeras abordagens existentes, a qual eu gosto bastante, pois dentro da minha experiência clínica ela se encaixa bem.

Outra coisa importante é considerar todo o contexto da criança e não apenas o seu desenho. O velho clichê “cada caso é um caso” sempre é válido. A avaliação da demanda da criança e o seu devido acompanhamento sempre deve ser realizado por um profissional da área da saúde e/ou educação que tenha esse conhecimento.

O livro que mais gosto e que serviu como base para a realização desses posts é “A linguagem gráfica da criança” de Michaela Strauss.

Outros que abordam o tema, sob diferentes perspectivas são:

– Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil, de Edith Derdyk – que traz o olhar de uma artista e arte-educadora;

– O desenho infantil, de Florence Meredieu – que faz uma crítica aos métodos utilizados para análise do grafismo infantil, onde o adulto acaba por projetar os seus fantasmas;

– O desenho infantil: entenda como a criança se comunica por meio de traços e cores, de Nancy Rabello – que traz uma análise sobre as etapas, as cores, os simbolismos e a localização do desenho no papel;

– Garatujas: rabiscos e desenhos – a linguagem secreta das crianças, de Evi Crotti e Alberto Magni.

Para compreender melhor esse artigo, convido vocês a lerem os demais dessa série:

“Como o brincar influencia na preensão do lápis”

“O desenvolvimento do desenho no primeiro setênio – Parte I”

“O desenvolvimento do desenho no primeiro setênio -Parte II”

“O desenvolvimento do desenho no primeiro setênio – Parte III”

Espero ter contribuído de alguma forma! Compartilhem suas experiências, se quiserem e enviem sugestões e dúvidas, se precisarem. Estou à disposição!

“Observando determinada etapa do desenvolvimento acompanhada dos desenhos correspondentes, abre-se para nós a porta ao entendimento da individualidade infantil. Os signos enigmáticos se desvendam, e começamos a decifrar os hieroglifos. O desenho infantil objetiva os sinais no caminho da antropogênese.” (Michaela Strauss)

Abraços e até a próxima!

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