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Como contar histórias para as crianças pequenas e o Projeto Bebelê

Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças, nem barômetros. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.  (Manoel de Barros)

O hábito de contar histórias permeia as relações humanas desde os tempos mais remotos e carrega consigo, não somente a função informativa, mas o potencial de fortalecer vínculos sociais e afetivos, estimular a imaginação, aprimorar a atenção e a concentração, entre tantos outros. As histórias, sejam fictícias ou reais, servem como ferramentas para o nosso desenvolvimento e nos ajudam na elaboração das nossas próprias vivências.

É muito importante que, na primeira infância, a criança tenha um contato saudável com essa promissora experiência, pois isso, com certeza, influenciará a sua futura relação com os livros. Ouvir e contar histórias trazem muitos benefícios e podem ser atividades bem divertidas, quando conduzidas, com carinho, por um adulto consciente da importância da sua função. Por isso, seguem abaixo algumas dicas para auxiliar nesse processo tão encantador.

1 – O livro para o bebê: 

Alguns adultos têm o hábito de contar histórias para os bebês durante a gestação e/ou quando ainda são muito pequenos. O que aproveitam os bebês desse comportamento, uma vez que não conseguem compreender o que está sendo dito? Em conversas, canções ou histórias, a voz humana, juntamente ao calor do contato, é capaz de acalmar os bebês e lhes trazem conforto e segurança. A formação do vínculo afetivo também está em jogo nesse momento, portanto, um cuidador que já realiza esses atenciosos cuidados, também se sentirá mais confiante no exercício de sua nova função e compreenderá melhor o choro e as outras maneiras de expressão utilizadas pela criança.

Não há ainda a necessidade do livro, mas existem muitos produtos pensados para esse público da faixa dos 0 aos 3 anos de idade. Novamente, volto a reforçar que a criança não precisa de muito para que seu desenvolvimento inicial ocorra de maneira saudável e que o excesso de estímulos pode ser tão prejudicial quanto a falta deles.

Caso optem pelos livros, é bom que saibam que, nesse momento, a criança está bastante aberta aos acontecimentos externos, descobrindo e aprimorando, cada vez mais, seus sentidos. Por isso, encontramos livros de contrastes para o recém-nascido, cuja acuidade visual ainda é bastante limitada; livros de sons que facilitam a percepção auditiva e livros de texturas como forma de ampliar a gama de experiências táteis. Eu, particularmente, substituiria tudo isso por histórias contadas, pequenos passeios e Shantala (massagem para bebês). Eu prefiro que a criança descubra as texturas, os sons, etc, por meio de vivências mais significativas como ao tocar o seu animal de estimação, os objetos da casa, do parque, ao ouvir um som durante a manipulação de um instrumento e por aí vai…

Devido a pouca coordenação motora dessa faixa etária, existem livros de diferentes materiais: de pano, de plástico (para ser levado ao banho) e de papéis mais grossos; todos com o objetivo de facilitar o manuseio. Ah, claro! Não se esqueçam que tudo será levado a boca, então, atenção para a higiene desses produtos.

Nessa fase, o livro é visto como um brinquedo pela criança e é assim que deve ser. Os adultos até podem ensinar como se viram as páginas, mostrar as figuras, indicar um início, um meio e um fim, mas, o ideal é que a criança explore como queira, de maneira lúdica, sem cobranças e, se ela quiser lhe atribuir a função de livro, será por descoberta própria, por perceber o mesmo interesse nos pais e/ou nos cuidadores, que lhes servem de exemplo a seguir.

Outra coisa importante que ocorre nessa fase é o desenvolvimento da oralidade. A criança começa a descobrir meios de expressar verbalmente seus gostos e seus anseios. Sendo assim, é comum encontrarmos livros de figuras para serem nomeadas. Ok, mas o educador deve tomar cuidado para não fazer a criança decorar as palavras que para ela não fazem sentido algum. Pouco lhe será útil esse tipo de aprendizado. Apenas registramos o que chega para nós repleto de significado, e não figuras bidimensionais que encontramos em um livro. Se a criança nunca viu uma bola, não será a gravura do livro que lhe permitirá entender como esse brinquedo funciona e as sensações que provocam. Ao tomar contato com a bola e registrar a experiência que a mesma lhe proporciona, aí sim ela poderá identificar esse brinquedo em um livro, qualquer que seja sua representação.

Em relação ao livros de histórias, os quais as crianças começam a ter contato à partir dos 3 anos (ou antes), prefira os de ilustrações bonitas e mais próximas da realidade. Animais e pessoas devem estar completos, não representados pela metade. A criança está desenvolvendo diferentes conceitos, entre eles, esquema corporal, identificação da parte no todo, etc, portanto devemos evitar situações que possam atrapalhar esse processo.

2- A escolha da história:

Os contos de fadas são as histórias que mais vão de encontro às necessidades das crianças, na primeira infância.

Nessa fase, elas passam por inúmeras transformações e, esses relatos mágicos, além de abordarem conteúdos de importância coletiva, contêm elementos que auxiliam no processo de individuação. Seus personagens são muito bem definidos e representam, arquetipicamente, os ideais, as qualidades que pretendemos alcançar. Ou seja, esses personagens, representam forças, dentro de uma mesma pessoa, que lutam para estruturar uma nova realidade frente a uma crise estabelecida.

Inicialmente, os contos escolhidos devem ser curtos, para melhor compreensão e para prender a atenção do pequeno ouvinte.

Sua leitura deve ser realizada conforme se apresentam nos livros, sem a interferência do adulto para tentar amenizar alguma passagem que possa considerar imprópria para os pequenos.

A criança absorverá do conto somente o que a sua demanda interna solicitar – sementes plantadas para serem colhidas futuramente.

Após conhecer algumas histórias, a criança saberá dizer qual a sua preferida e não é de se espantar que a queira ouvir com uma grande frequência. Devemos respeitar esse pedido, pois ele nos sinaliza que essa história está auxiliando na elaboração de alguns conflitos internos.

No entanto, não convém contarmos vários contos de fadas no mesmo dia, pois podemos criar uma sobrecarga de questões a serem trabalhadas, deixando a criança bastante agitada, ansiosa.  Apenas um conto por dia já é mais do que suficiente.

Outros livros de histórias que abordam e ajudam a elaborar as transformações vivenciadas, também são bem-vindos. A criança pode se apropriar do personagem e, assim como ele, buscar soluções para seus problemas cotidianos que se apresentam em diferentes contextos como na escola, em casa, etc.

Os cuidadores também podem contar histórias de situações semelhantes que vivenciaram na época da infância. Isso, além de facilitar uma aproximação, valida os sentimentos da criança e lhe indica caminhos para superar seus dilemas, por identificação com o exemplo de alguém que muito admira.

3- A leitura:

Seria interessante que primeiro a história fosse contada pelo adulto, antes de ser apresentada diretamente no livro. Isso estimula a imaginação e contribui para o desenvolvimento da abstração. Talvez, a cultura do “tudo pronto” ao qual a criança está acostumada, dificulte esse processo, no início, mas, tudo é uma questão de adaptação e vale muito a pena insistir!

Já, ao ler o livro, vá com calma para facilitar a assimilação e mantenha a voz suave, serena, procurando não realizar grandes oscilações do tom, para que a criança possa imprimir na história suas próprias constatações, frente às emoções apresentadas.

Ao final, deixe a criança explorar o livro o máximo que puder, para que possa identificar passagens, descrever o que observa, perceber os detalhes, pois isso a auxiliará na incorporação dos conteúdos que lhes serão úteis.

Por falar em conteúdos, sempre é bom esperar a criança elaborar uma história antes de lhe apresentar uma outra versão da mesma, por dois motivos:

1) Ler a história sempre do mesmo jeito facilita a memorização e,

2) As versões aprensentadas podem ser muito conflitantes e causarem uma confusão, dissipando o potencial resolutivo do conto.

Por último, procure contar a história sempre no mesmo horário, fazendo daquele momento parte de uma rotina esperada e que respeita o ritmo interno dos pequenos. Antes de dormir é um excelente momento e, ainda, ajuda a sinalizar que já está na hora de ir pra cama!

O Projeto Bebelê

O Bebelê é uma atividade realizada aos sábados e domingos na Biblioteca de São Paulo (zona norte) e na Biblioteca Parque Villa Lobos (zona oeste). Apoiado pela Secretaria da Cultura, o projeto tem o objetivo de incentivar o gosto pela leitura à partir de ações voltadas para o público de 0 a 4 anos de idade, principalmente. Também busca sensibilizar pais e cuidadores de crianças em fase pré-escolar para esse saudável hábito, além de servir de referência para educadores, contadores de histórias, mediadores, facilitadores, entre outros.

As ações têm duração  de até 45 minutos, onde são utilizados livros, fantoches, instrumentos musicais, brinquedos e canções, como suporte na interação com os pequenos.

Para que a brincadeira possa continuar em casa, mediante a apresentação da carteirinha da biblioteca (que pode ser feita na hora por meio de um documento de identificação), os pais e cuidadores podem levar, como empréstimo quinzenal, uma sacola contendo dois livrinhos e um fantoche. Para a criança é um momento lúdico bem bacana. Os adultos acabam se divertindo também, sem contar que, tais bibliotecas  são espaços muito bacanas de convivência e muito bem organizadas.

Para saber mais sobre a programação e sobre o Projeto Bebelê:

-acesse o site da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo cultura.sp.gov.br

– ou entre em contato diretamente com as Bibliotecas parceiras do Projeto

* Biblioteca de São Paulo

Endereço: Avenida Cruzeiro do Sul, 2630

Telefone: (11) 2089-0800

Horário de Funcionamento: terça a domingo, das 9h30 às 18h30

e-mail: www.bsp.org.br

* Biblioteca Parque Villa Lobos

Endereço:  Avenida Queiroz Filho, 1205, Alto de Pinheiros

Telefone (11) 3024-2500

Horário de Funcionamento: terça a domingo, das 9h30 às 18h30

e-mail: www.bvl.org.br

 

Para acompanhar as dicas, curta a página do “Brincando por aí” no Facebook e acesse o site www.brincandoporai.com.br para conhecer um pouco mais sobre o meu trabalho.

Abraços e até a próxima!!!

 

 

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