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Brincando por aí com a Fono!

“Fernanda, você me ensinou a falar direito, obrigada; este presente é para você, espero que goste. Fono, você me ensinou a falar helicóptero, obrigada!”

Convidada pela Bruna, que eu conheci sendo uma super terapeuta ocupacional, pra falar do que faço com prazer, fiquei pensando em como traduzir isso pras letras escritas no blog. E acho que o recadinho acima, recebido da Kelly, que tem 8 anos, é um bom ponto de partida.

Comunicar-se é uma necessidade quando estamos em relação. A partir do momento em que a gente vem a esse mundo e percebe que precisa dos outros pra melhor viver, passa a desenvolver um repertório de sons, gestos, caretas, que se transformam em sentidos para nos colocar em contato com o mundo ao redor chamados de linguagem.

Esses sons e todos os outros recursos deixam de ser aleatórios com a convivência e a cultura: não vale muito quando a gente fala línguas diferentes que o outro não é capaz de compreender. Por isso, a gente “combina” códigos, que podem ser diferentes em cada grupo ou em cada situação, mas que precisam ser comuns para que todo mundo se entenda.

Mas às vezes, algo acontece. Uma língua que trava ou solta demais, um som que insiste em sair num golpe só invés de sair num soprinho suave. Uma varinha mágica que vira farinha, uma sapa que vira tapa dolorido, um prato delicioso que vira pato desengonçado. Às vezes, a coisa fica mais complicada: é difícil entender o que as pessoas dizem e, especialmente, o que os professores ensinam. Outras tantas, assistir a um desenho até o final pode ser de uma agonia infinita. Tem gente que não consegue escutar com os ouvidos, mas pode usar um monte de jeitos para fazer isso. E há quem nem veja muita graça em estar com o outro, mas isso é só porque não sabe muito bem como agir.

E aí, relacionar-se e expressar nossos desejos e opiniões fica em risco. E isso tem implicações seríssimas: faz ficar triste, traz isolamento e diminui até mesmo a vontade de brincar. :O Falhas no processo de desenvolvimento da linguagem acabam atrapalhando uma série de outras funções da vida – pra não dizer todas.

Eis que eu sou investida de um superpoder que é fazer as pessoas perceberem melhor os sons, os lugares onde a língua, os dentes e as bochechas precisam ficar, e descobrirem que helicóptero é muito mais um palavrão do que uma palavra impossível de dizer. A partir de algumas boas conversas e brincadeiras e de um ou outro truque secreto, quem não está conseguindo se comunicar, passa a acreditar que é tão capaz quanto qualquer outra pessoa – basta ter algo a dizer. E descobre que há muitas maneiras de se colocar em comunicação, além dos sons e das palavras – maneiras que incluem os gestos, os desenhos e a arte.

Como fonoaudióloga super-heroína da Kelly – que certamente já conseguia falar helicóptero, pois sua dificuldade era outra – eu assumo a responsabilidade de me colocar disponível para que o outro (neste caso, meu ou minha paciente) se comunique da melhor maneira que possa. Preciso manter uma escuta afetiva e desejosa de compreender o que me é dito, mais do que atentar às falhas, “erros” linguísticos ou sintáticos, a uma ordem do discurso que não acompanha a dinâmica da língua viva. Ser fonoaudióloga é ter ouvidos como os do lobo da Chapeuzinho: ouvidos de ouvir melhor, para ajudar, quando possível, às pessoas se entenderem melhor.

A Kelly? Já fala e escreve helicóptero, paralelepípedo e anticonstitucionalissimamente.

;P

Fernanda Senna é paulistana e adora conversar, ler e viajar. Descobriu-se fonoaudióloga meio sem querer e escreve por insistência e necessidade.

 

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